EPIC NEW EAR!
Lyric to Whisper by e.r.
ER, 16 de Outubro, Dia Mundial contra a Fome
quantas crianças morrem de fome por minuto
Grâce à l'avancement technologique, il est possible de savoir précisément
combien d'enfants meurent de faim par minute
Thanks to technological advancement, it is possible to know precisely
how many children die of hunger per minute
ER, 1 de Junho, Dia e Noite Mundial da Criança
ER, 16 de Maio, Dia Internacional de Histórias de Vida
A escravidão é uma antecâmara subterrânea com sementes de cravos
ER, 25 de Abril
Um livro é um bolo inteiro numa só fatia
ER, Dia Mundial do Livro, in Grecos & Troianos
Ir de manhã em voz alta, voltar à tarde em voz baixa, estacionar à noite em voz interior:
a voz é uma biblioteca itinerante
ER, fragmento, Dia Mundial da Voz
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Os livros trazem tudo o que levam consigo. Como se tudo nunca tivesse sido nada antes de ser livro. Como se as coisas só tivessem vindo a ser o que os livros são. Dar ser, ter ser, ser ser : é o que o livro é. Venerável como tudo o que é, vulnerável como tudo o que foi sendo.
Se o destino da estante é apenas um instante do destino, só há nisso o bem que o mal permite: bem nenhum. E o eterno instantâneo é tão duradouro que só por esquecimento pode desaparecer. Acaso a sorte de lembrar esteja por azar esquecida, abram-se mais livros à sorte. E fechem-se ao azar.
ER, in Uma Luz de Papel, Edições Eterogémeas, 2007
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Procura-me um poeta mas não o encontres.
Aproxima-te da sua poesia. Primeiro, segue-a para todos os lados, ainda que ela te pareça ir a lado nenhum. Depois, leva-a para onde quiseres. Passarás por lugares que conheces muito bem, mesmo que penses não saber imaginá-los. Sempre ouviste dizer que os poetas se procuram no curso de um rio como este ou na silenciosa direcção do vento que sentes agora. Pode ser que sim mas não te iludas: procura-os onde não os possas encontrar.
Encontra-me um poeta mas não o procures.
Concentra-te como se fizesses tudo para não fazer nada. Ou então conta segundos em voz interior, a mais útil das coisas inevitáveis. Sempre ouviste dizer que os poetas se encontram no rasto de outro tempo ou na frescura da manhã que nunca é esta. Mesmo que assim seja, não te desiludas: encontrá-los-ás se não os procurares.
Traz-me um poeta mas não o apanhes.
Quanto mais difíceis, os poetas, mais fácil é agarrá-los, fechá-los. Nunca ouviste falar daquelas geringonças que desperdiçam a sua poesia para aprisionar a dos outros? Desilude-te: traz-me um poeta tal como ele é. Trá-lo como se passeasses de mãos nos bolsos, como se parasses para escrever as palavras que ele te dita. Depressa, antes que deixemos de ouvir. Devagar, antes que se acabe tudo sem ter começado.
ER, in a Arte na Página, Bernard Jeunet, Apanha-me também um poeta, Ilustrarte, C.M. Barreiro, 2006
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Despacho Criativo
Homens sensatos vêem contornos e portanto desenham-nos, disse William Blake.
Mas também disse que homens loucos vêem contornos e portanto desenham-nos.
Entre o decreto e o secreto há um túnel de vento. Porque os extremos tocam-se como instrumentos de sopro. Provavelmente no ruidoso silêncio de um sopro só: aquele que levanta a poeira que esperava merecer um beijo nosso.
Nós somos como vocês: diferentes de nós.
Porque nós próprios somos diferentes de nós mesmos:
Nós mesmos somos aqueles que fomos sendo; nós próprios somos aqueles que vimos a ser.
Como? Entramos na pequena porta da norma, andamos nos seus corredores estreitos, admiramos as suas paredes de papel padronizado e muito bem colado, vivemos o conforto do seu condomínio fechado: mas só até encontrar a grande porta de saída, provavelmente depois de uma noite mal dormida mas sempre bem sonhada.
Trazemos o despacho normativo como prova da visita guiada.
Mas não temos tempo de o emoldurar. E esperamos nunca vir a ter: nunca vir a ter a idade normal da normal idade.
ER, publicação RM/ alunos de Design FBAUP Mostra UPORTO.08
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Tal e coisa e os cinco (re)sentidos
O Homem que Cheirava Tudo e Mais Alguma Coisa tinha o nariz irremediavelmente empinado. Era, pois, natural que o metesse onde não era chamado e que disso fosse acusado com alguma injustiça. Mas não era qualquer um que provava a sua culpa ou a sua inocência.
O Homem que Provava Acima de Tudo a Torto e a Direito tinha naturalmente o paladar apurado. Engordava só de provar o que lhe apetecesse. Provava qualquer coisa e o contrário, com uma coerência fácil de engolir a quem apreciasse o agridoce. Só visto!
O Homem que Só Acreditava no que os Seus Olhos Viam contemplava a natureza humana horas a fio, procurando entender a paisagem. Comia naturalmente com os olhos, julgando a dieta visualmente equilibrada. Fruto de boa educação à vista desarmada, aprendera a ver sem mexer com as mãos.
O Homem que Deitava Mãos à Obra tinha tudo à mão de semear. Parecia não ter mãos a medir mas era visto muitas vezes a contar pelos dedos da mão esquerda os da direita e vice-versa: era uma história qualquer, que contava a si próprio, todos os dias, antes de deitar as mãos à cabeça.
O Homem que Ouvia Falar Disto e Daquilo julgava ter ouvido absoluto. Raramente falava e raramente não se falava dele. Uns garantiam que isto lhe entrava por um ouvido, outros que aquilo lhe saia pelo outro.
Entre os que davam ouvidos a qualquer coisa, era mais conhecido por Aquele para Quem Tudo é Música.
O Homem que Era Não Sendo distinguia-se pelo sentido apurado da oportunidade de ser assim. Não era um ser qualquer mas o tal qual quer. Mantinha actualizada a faculdade de optar por não escolher. Orientava-se pelo mapa (inodoro, incolor, insonoro, insonso e intacto) do seu território (indolor) onde podia andar descalço sem o saber. Desenvolvera mecanismos para garantir o funcionamento contínuo dos princípios em prejuízo dos fins e detrimento dos meios.
ER, Festival Escrita na Paisagem 2006
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Mote Mor
Suicidar-se é dar a si próprio um presente sem fingir surpresa.
O veneno e o prazo de validade nada têm a combinar.
Requiem é o toque do despertador ao crepúsculo.
A carpideira traz a bolsa lacrimal a tiracolo.
O necrólogo é o intérprete do carrasco.
O finado jamais volta a desafinar-se.
O extinto é finalmente distinto.
ER (excerto) in Águas Furtadas nº 9, NJAP/JU, 2005
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A mãe comia pouco mas ficava cada vez mais barriguda. O pai ajudava a mãe e a barriga no que podia. Trazia discos, para a barriga e a mãe ouvirem: Rachmaninoff, Vocalise, Op.34, nº 24, por exemplo. O primeiro filho, uma rapariga, ensinou os pais a ler e a escrever de novo. O segundo trouxe outra vez o mundo consigo, que meteu desarrumadamente em casa, empurrando todos e pedindo desculpa a tudo. O último trouxe um mar de perguntas fáceis pela falta de resposta. Nasceu quando a irmã já sabia o que é nascer no rigor dos dicionários. Os meninos arrastavam os sacos de supermercado para agarrar as guloseimas com que açucaravam tudo o que lhes parecia amargo. Os pais garantiam a luz das estrelas e coisas assim úteis. Por vezes, contavam histórias sobre bosques encantados. O tempo passou. Por vezes a pente fino, por vezes a ponto largo. Uma ideia que só as trepadeiras sabem explicar.
ER in O que é um Homem Sexual, Primeiros Passos, 2004
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Post.all.free
A mania da felicidade inquieta a vida.
A liberdade é abundante mas sempre em vias de extinção.
A virtualidade sempre foi uma realidade.
Ao raio da circunferência responde-se com o diabo do círculo.
A maré alta serve para apagar provas.
A morte não se incomoda: espera que a vida desista.
O ecológico ecoa mais que lógico.
O ciumento-reforçado dá com a cabeça na própria parede.
O semáforo contribui para os espaços verdes da cidade.
O dente- de- alho é autofágico.
A pré- história só passou a existir depois da história.
Na aldeia global, calçada à portuguesa, por exemplo, é o mesmo que descalça à espanhola.
A guerra deixa a guerra em paz, mas a paz não deixa em paz a guerra [nem deve].
Os meio de comunicação justificam os fins [mas]
Cada raça é uma ração para as demais [mas]
É o próprio rio que determina as suas formas marginais.
As setas são uma boa ajuda, se não vêm em nossa direcção.
O apocalipse está aí a chegar, para ver na televisão.
Ainda é possível sair à rua nu, sem bolsos?
ER (excerto) in Instantes, ESAD, 1999
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Hong Kong Links
Os heróis distinguem-se da câmara dos comuns.
A mercadoria circula, venosa, purificada em diamantes pelo coração de pedra.
A guerra é um alucinogéneo.
Uma ilha é uma porção de terra cercada de barcos por todos os lados.
A água de colónia é o instrumento de socialização dos piratas.
O papel moeda contém opiáceos.
Ao Século das Luzes sucede a cultura de interruptor.
O mercado livre é um cativeiro como qualquer outro.
A obediência é um diálogo de sucesso.
ER in PASSEVITE, (excerto) GANG BANG HONG KONG PING PONG DING DONG, Macau, 1997